O relatório "O Brasil dos Agrocombustíveis - Impactos sobre terra, meio e sociedade", lançado nesta quinta-feira em Buenos Aires, na Mesa Redonda pela Soja Responsável, traz um estudo do impacto socioeconômico do cultivo de soja e mamona no Brasil. Essas duas culturas fornecem matéria-prima para a produção de agroenergia, um dos principais eixos de desenvolvimento do governo Lula.
A pesquisa foi realizada pela ONG Repórter Brasil e terá mais dois relatórios em 2008. Nos volumes seguintes, serão analisados o milho, algodão, dendê e babaçu (número 2); em seguida a cana e o pinhão manso (número 3). O projeto foi desenvolvido para compreender os conflitos humanos e ambientais em decorrência da demanda internacional por biocombustível, sob a liderança da China e Estados Unidos.
Para a Repórter Brasil, a expansão das fronteiras da soja no País tem ampliado a contaminação de rios e os desmatamentos, além de agravar a concentração da terra, o êxodo rual e os conflitos agrários. A pesquisa conta com o apoio de movimentos sociais como o MST e a Pastoral da Terra. Há também um aumento do número de pessoas contaminadas por agrotóxicos.
- Quando você produz cada vez mais soja com um modelo agroquímico, para aumentar a produtividade, cada vez mais você vai ter pessoas contaminadas. No caso da contaminação humana por agrotóxico, a gente utilizou um banco de dados chamado cinetoques e ele me mostra que está aumentando, no Brasil, o número de contaminados por agrotóxicos.
Um esboço da radiografia feita pela ONG:
"No que pese o produção de soja ter aumentado, o número de propriedades rurais dedicadas ao grão caiu 42% em uma década. A taxa foi de 16,3% para as outras propriedades. Esse processo de expansão não têm sido pacífico: ele pode estar por trás de pelo menos quatro dos 16 conflitos agrários no Estado do Mato Grosso em 2007, de ao menos 18 dos 38 conflitos anotados no Paraná, e de pelo menos dois dos 105 conflitos apurados no Pará."
Em entrevista a Terra Magazine, o coordenador do Centro de Monitoramento de Agrocombustível e membro da Repórter Brasil, Marcel Gomes, afirma que o relatório não comprova o risco de agravamento da fome com a expansão da soja - ao contrário do que diz o relator especial da ONU, o sociólogo suíço Jean Ziegler.
- O que a gente percebeu, no Brasil, é que não há grandes indícios de que a substituição de áreas de cultivo de alimentos (feijão e arroz) por soja ou cana esteja prejudicando a oferta de alimentos. A gente não dá uma conclusão definitiva. A pesquisa simplesmente não conseguiu comprovar isto - diz Marcel Gomes, que não descarta a pressão sobre o preço dos alimentos.
Segundo o "Brasil dos Agrocombustíveis", a lavoura de soja aumentou 20% na região Norte e 7,9% no Nordeste. Há críticas às relações trabalhistas e denúncias de trabalho escravo. "Apesar da intensa mecanização do setor, trabalho escravo tem sido encontrado em fazendas de soja na etapa de limpeza do solo para a implantação de lavouras. Dados da 'lista suja' do trabalho escravo, cadastro público de empregadores que utilizaram esse tipo de mão-de-obra mantido pelo ministério do Trabalho e Emprego, de 2007, mostram que 5,2% dos casos ocorreram com o grão", diz um trecho.
A Repórter Brasil denuncia também o avanço da soja em terras indígenas, a exemplo da Maraiwatsede dos Xavante (Mato Grosso) e da Guarani-Kaiowá (Mato Grosso do Sul).
- Você encontra desde produtores invadindo áreas indígenas a agricultores fazendo parcerias com índios para produzir soja. Um problema grave que a gente encontrou é a questão da contaminação das cabeceiras do parque do Xingu. Porque as cabeceiras do Xingu estão fora do parque, em áreas de soja. Nessas áreas, as cabeceiras são contaminadas e levam agroquímicos para dentro do parque - relata Gomes.
O relatório pode ser conferido no seguinte endereço:
http://www.reporterbrasil.org.br/agrocombustiveis.pdf . Leonardo Sakamoto é o coordenador-geral do projeto.
Publicado em:
http://terramagazine.terra.com.br/
e também:
http://blogdosakamoto.blig.ig.com.br/2008_04.html